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domingo, 19 de agosto de 2007

Mais um caso de "autoria negada" ...

A internet fez com que Frei Betto virasse Ivan Pinheiro, secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Foi o mais recente exemplo da grande editora de textos falsos em que o mundo virtual se tornou: sem nunca ter conversado com Pinheiro, Frei Betto se viu, semana passada, assinando um artigo do secretário do PCB que criticava a cobertura jornalística dos Jogos Pan-Americanos. Até se esclarecer a confusão, que nenhum dos dois sabe como começou, o texto já estava espalhado por "sites", blogs e correntes de "e-mail". A Frei Betto ficou a consolação de que não está só — na mesma situação estão recordistas brasileiros de vítimas de textos apócrifos na internet como Arnaldo Jabor, Luís Fernando Verissimo e Millôr Fernandes, ao lado de estrangeiros como Gabriel García Márquez.

Argumentando que a cobertura do Pan, sobretudo das Organizações Globo, teria sido desfavorável a Cuba, o artigo “O Globo, a Revolução Cubana e o Pan” — de Ivan Pinheiro — foi o pivô do engano. Publicado no "site" do PCB no início de agosto, o texto foi reproduzido em outros "sites" e divulgado por "e-mail". Com a assinatura de Frei Betto. A falsa autoria chegou a requintes como a indicação “Publicação autorizada pelo autor”, na reprodução do blog “Dialógico”.

— Não sei por que houve esse equívoco — diz Pinheiro. — Talvez Frei Betto já tenha escrito algo com tema parecido e, então, acharam que era dele também.

— A internet é a casa da mãe Joana — resume Frei Betto. — Tenho como princípio o seguinte: nunca ataco pessoas e instituições, apenas defendo minhas idéias; isso não é minha índole, incluindo aí índole literária.

Não foi a primeira vez que Frei Betto foi incluído no universo da literatura apócrifa. Ele já “assinou”, sem ter escrito, texto criticando o Vaticano à época da visita do Papa ao Brasil, além de uma espécie de “poema água-com-açúcar” em que ensinava a melhor maneira de se preparar para a morte:

— Cheguei a instalar no computador um alerta do Google que manda um aviso quando um "site" contendo seu nome entra na internet. Foi assim que soube da confusão com o texto do Ivan Pinheiro. Como o artigo não tem meu estilo, nem concordo com as idéias dele, mandei um "e-mail" ao editor do "site" onde vi primeiro isso, chamado “O Vermelho”.

O editor de “O Vermelho”, Bernardo Joffily, publicou uma errata, admitindo a troca de assinaturas. O texto foi recebido pelo "site", que o pôs no ar sem confirmar com Frei Betto a autenticidade do artigo, segundo Joffily, para quem “o primeiro engano na internet sempre é difícil de achar”.

Texto de Alessandra DuarteFonte: O Globo

Data: 18 de Agosto de 2007

sábado, 9 de junho de 2007

Ter ou não ter namorado, eis a questão

Atribuído a Carlos Drummond de Andrade, mas é de Artur da Távola

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.

Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio. Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Viver não dói. O que dói é a vida que não se vive

Recebi mais um daqueles e-mails bonitinhos, apresentação em ppt, fotos lindas, musiquinha gostosa, texto falso do Drummond, ops! É isso mesmo, ainda está rolando aquele texto "Viver não dói" atribuído ao nosso querido Drummond. Algum tempo atrás, li no blog "Autor desconhecido não existe", um texto bacana sobre esse tema, resolvi publicar aqui, com todos os créditos a autora. Leia que vale a pena.

Deixem Drummond em paz

O texto é atribuído a Carlos Drummond de Andrade e ao Desconhecido. É mais um Frankstein. O original e de autoria da Musa do Autor Desconhecido, nossa amiga Martha Medeiros, que deve ter colado chiclete na cruz ou servido ki-suco na Santa Ceia. No texto que recebi por email, existem alguns enxertos, frases traduzidas que alguém achou que cairiam bem para "completar" a idéia. Comeram o título, tiraram boa parte do primeiro parágrafo. Foi crime premeditado. Não entendo por que essas pessoas não escrevem seus próprios textos ao invés de sair por aí alterando o texto dos outros.

Alteraram até o formato. Não se trata de poesia, mas de prosa. E é um comentário dela sobre uma frase de um poeta mineiro. Deixa eu destrinchar a coisa para que você entenda melhor:

Eis o texto original, da Martha Medeiros, publicado no site Almas Gêmeas :

"AS POSSIBILIDADES PERDIDAS
20 de agosto de 2002

Martha Medeiros

Fiquei sabendo que um poeta mineiro que eu não conhecia, chamado Emilio Moura, teria completado 100 anos neste mês de agosto, caso vivo fosse. Era amigo de outro grande poeta, Drummond. Chegaram a mim alguns versos dele, e um em especial me chamou a atenção: "Viver não dói. O que dói é a vida que não se vive".

Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade interrompida.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais. "

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Um dos enxertos:

"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida... Esta no amor que não damos, nas forças que não usamos, Na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-se do sofrimento, também perde a felicidade." -- Mary Cholmondeley

"Every day I live I am more convinced that the waste of life lies in the love we have not given, the powers we have not used, the selfish prudence that will risk nothing and which, shirking pain, misses happiness as well." Mary Cholmondeley

O enxerto final é retirado do livro " You gotta keep dancin' " de Tim Hansel, um livro de motivação escrito por quem sofreu um acidente e foi perseguido por fortes dores. Ele diz, entre outras coisas, que não podemos evitar a dor, mas podemos evitar a alegria.

"Pain is inevitable, but misery is optional. We cannot avoid pain, but we can avoid joy." (Tim Hansel)"A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Nós não podemos evitar a dor, mas podemos evitar a alegria" (Tim Hansel)

You Gotta Keep Dancin' by Tim Hansel"An amazing book by an amazing man who shares his thoughts, faith and even journal entries through his battle with chronic pain. Stress, disappointment, heartache, hurt -- all are part of the human condition. But while PAIN IS UNAVOIDABLE, MISERY IS OPTIONAL! The freeing message of this book is that no matter what your circumstances, with God's help, you can choose to be joyful. He speaks from experience."

E, por fim, o poema do autor mineiro que inspirou o plagiado texto da Martha Medeiros:

Canção (Emílio Moura)

Viver não dói.

O que dóié a vida que se não vive.

Tanto mais bela sonhada,quanto mais triste perdida.

Viver não dói.

O que dóié o tempo, essa força onírica

em que se criam os mitos

que o próprio tempo devora.

Viver não dói.

O que dóié essa estranha lucidez,

misto de fome e de sedecom que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói,

ferindo fundo, ferindo,

é a distância infinita

entre a vida que se pensa

e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.

O texto-frankstein em uma de suas versões:

Viver não dói

Definitivo, como tudo o que é simples.

Nossa dor não advém das coisas vividas,

mas das coisas que foram sonhadas

e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer,

apenas agradecer por termos conhecido

uma pessoa tão bacana,

que gerou em nós um sentimento intenso

e que nos fez companhia por um tempo razoável,

um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos

o que foi desfrutado e passamos a sofrer

pelas nossas projeções irrealizadas,

por todas as cidades que gostaríamos

de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos,

por todos os filhos que

gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,

por todos os shows e livros e silêncios

que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos.

Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque

nosso trabalho é desgastante e paga pouco,

mas por todas as horas livres

que deixamos de ter para ir ao cinema,

para conversar com um amigo,

para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe

é impaciente conosco,

mas por todos os momentos em que

poderíamos estar confidenciando a ela

nossas mais profundas angústias

se ela estivesse interessa

daem nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,

mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,

mas porque o futuro está sendoconfiscado de nós,

impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,

todas aquelas com as quais sonhamos e

nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,

mais me convenço de que o

desperdício da vida

está no amor que não damos,

nas forças que não usamos,

na prudência egoísta que nada arrisca,

e que, esquivando-se do sofrimento,

perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.

O sofrimento é opcional.

.Desvendado por Vanessa Lampert

Álbum da Lilica - Fotos publicadas aqui

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