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sábado, 12 de abril de 2008

O exercício físico vai contra a natureza humana


DRAUZIO VARELLA

A preguiça humana
MAL DESEMBARQUEI no aeroporto Santos Dumont, dei de cara com uma jibóia contorcida que avançava em passo de procissão. Era uma fila longa e grossa constituída por mulheres com trajes formais e homens de terno escuro, ejetados pelos aviões que aterrissavam no primeiro horário da manhã.

Usuário contumaz da ponte aérea que liga São Paulo ao Rio, jamais havia me deparado com aquela aglomeração ordeira.

Assim que a jibóia fez a curva, saí de lado para enxergar a origem do congestionamento. Não pude acreditar: a fila desembocava na boca da escada rolante. Ao lado dela, a escada comum, deserta como o Saara.

Imaginei que houvesse alguma razão para tanta espera, quem sabe a escada mecânica estivesse obstruída; mas, como não percebi nenhum obstáculo, caminhei em direção a ela. Não fosse a companhia de um rapaz de mochila nas costas, dois degraus à minha frente, eu teria descido no desamparo.

Se ainda fosse para subir a escada rolante, o esforço maior e a transpiração àquela hora da manhã talvez justificassem a falta de iniciativa. Os enfileirados, no entanto, berrando em seus celulares, em pleno vigor da atividade profissional, recusavam-se a movimentar as pernas mesmo para descer.

Se perguntássemos para aquele povo se a vida sedentária faz bem à saúde, todos responderiam que não. Pessoas instruídas estão cansadas de ler a respeito dos benefícios que a atividade física traz para o corpo humano: melhora as condições cardiorrespiratórias, reduz o risco de doenças cardiovasculares, reumatismo, diabetes, hipertensão arterial, câncer, degenerações neurológicas etc.

Por que, então, preferem aguardar pacientemente a descer um lance de degraus às custas das próprias pernas?
Por uma razão simples: o exercício físico vai contra a natureza humana. Que outra explicação existiria para o fato de o sedentarismo ser praticamente universal entre os que conseguem ganhar a vida no conforto das cadeiras?

A preguiça para movimentar o esqueleto não é privilégio de nossa espécie: nenhum animal adulto gasta energia à toa. No zoológico, leitor, você jamais encontrará uma onça dando um pique aeróbico, um gorila levantando peso, uma girafa galopando para melhorar a forma física. A escassez milenar de alimentos na natureza fez com que os animais adotassem a estratégia de reduzir o desperdício energético ao mínimo.

A necessidade de poupar energia moldou o metabolismo de nossa espécie de maneira tal que toda caloria ingerida em excesso será armazenada sob a forma de gordura, defesa do organismo para enfrentar as agruras dos dias de jejuns prolongados que porventura possam ocorrer.
Por causa dessas limitações biológicas, se você é daquelas pessoas que esperam a visita da disposição física para começar a fazer exercícios com regularidade, desista. Ela jamais virá. Disposição para sair da cama todos os dias, calçar o tênis e andar até o suor escorrer pelo rosto nenhum mortal tem.

Encare a atividade física com disciplina militar ou esqueça-se dela. Na base do "quando der, eu faço", nunca dará.

Falo por experiência própria. Sou corredor de distâncias longas há muitos anos. Às seis da manhã, chego no parque, abro a porta do carro e saio correndo. Não faço alongamento antes, como deveria, porque, se ficar parado, esticando os músculos, volto para a cama. Durante todo o percurso do primeiro quilômetro, meu cérebro é refém de um pensamento recorrente: não há o que justifique um homem passar por esse suplício.

Daí em diante, as endorfinas liberadas na corrente sangüínea tornam o sofrimento mais suportável. Mas o exercício só fica bom, de fato, quando termina. Que sensação de paz e tranqüilidade! Que prazer traz a certeza de que posso passar o resto do dia sentado, sem o menor sentimento de culpa.

Se eu perguntasse às pessoas daquela fila por que razão levam vidas sedentárias, todas apresentariam justificativas convincentes: excesso de trabalho, filhos que precisam ir para a escola, obrigações familiares, trânsito, falta de dinheiro, violência urbana.

No passado, diante desses argumentos, eu ficava condoído e me calava. Os anos de profissão mudaram minha atitude, entretanto: escuto as explicações em silêncio, mas não me comovo com elas. O coração vira uma pedra de gelo. No final, quando meu interlocutor pergunta como poderia encontrar tempo para a atividade física regular, respondo:
"Isso é problema seu."

Folha de S. Paulo, 12/04/2008

domingo, 2 de dezembro de 2007

Para que serve uma relação?

Definição mais simples e exata sobre o sentido de mantermos uma relação? "Uma relação tem que servir para tornar a vida dos dois mais fácil." Vou dar continuidade a esta afirmação porque o assunto é bom, e merece ser desenvolvido.

Algumas pessoas mantém relações para se sentirem integradas na sociedade, para provarem a si mesmas que são capazes de ser amadas, para evitar a solidão, por dinheiro ou por preguiça.
Todas fadados à frustração. Uma armadilha.
Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.
Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo, enquanto você prepara uma omelete, para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio, sem que nenhum dos dois se incomode com isso.
Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada, uma pessoa bonita a seu modo.
Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.
Uma relação tem que servir para cobrir as despesas do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro, quando o cobertor cai.
Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro no médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.
Dr. Dráuzio Varella

sábado, 24 de novembro de 2007

O segundo cérebro

DRAUZIO VARELLA
O INTESTINO é um órgão tão temperamental que os fisiologistas o consideram nosso segundo cérebro.
A seleção natural elegeu mecanismos neurológicos de alta complexidade para assegurar contrações e relaxamentos harmoniosos da musculatura intestinal, com a finalidade de fazer progredir o bolo alimentar: as ondas peristálticas.
Disposta ao longo do tubo digestivo, uma extensa circuitaria de neurônios conectada com o cérebro e com a medula espinhal controla o ritmo dessas ondas. Hormônios e mais de trinta neurotransmissores modulam os impulsos nervosos que trafegam de um neurônio para outro, para proceder ao ajuste fino da movimentação intestinal.
Quando os alimentos caem no estômago, esses neurotransmissores disparam o reflexo gastrocólico, verdadeira ordem para que as alças do intestino iniciem o movimento.
Um dos neurotransmissores mais atuantes nessa transmissão de mensagens é a serotonina. Como conseqüência, fatores que alteram a produção de serotonina ou modificam as características dos receptores aos quais ela se liga causam não apenas transtornos psicológicos, mas desorganizam as ondas peristálticas e podem provocar obstipação (prisão de ventre), diarréia, dispepsia e a síndrome do intestino irritável.
Estudos mostram que de 10% a 20% dos adultos se queixam de obstipação, e que a incidência nas mulheres é duas vezes maior.
Há dois tipos de obstipação crônica: o primeiro é caracterizado por lentidão do trânsito; no segundo, a freqüência das evacuações pode estar normal ou mesmo aumentada, mas o volume é reduzido e as fezes são difíceis de eliminar. Nos dois casos, fica a sensação de esvaziamento incompleto do conteúdo intestinal.
Existe uma tendência entre os gastroenterologistas de considerar a obstipação crônica parte da chamada síndrome do intestino irritável.
Antigamente conhecida como "colite nervosa" ou "síndrome do cólon irritável", nela não encontramos lesões patológicas, mas alterações no mecanismo de sinalização mediado pelos neurotransmissores e por seus receptores, que interferem com as ondas peristálticas, modificando os hábitos digestivos.
O diagnóstico é feito clinicamente, depois que o médico ouviu as queixas, pediu exames e excluiu a possibilidade de enfermidades mais graves. Sintomas como diarréia e prisão de ventre podem ocorrer no câncer de cólon e em doenças inflamatórias como a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn, condições que exigem a realização de colonoscopia, para visualizar e colher amostras do revestimento interno do intestino grosso.
Vários critérios foram estabelecidos para padronizar o diagnóstico da síndrome: dores abdominais aliviadas ao evacuar, fezes amolecidas, evacuações mais freqüentes quando as dores se instalam, distensão abdominal, presença de muco nas fezes e sensação de que a evacuação foi incompleta.
Muitas vezes, os portadores dessa sintomatologia só buscam ajuda após o uso crônico de laxantes, lavagens e tratamentos caseiros inúteis.
São aconselháveis, em todos os casos: hidratação adequada, atividade física, alimentar-se em intervalos regulares e usar o banheiro sempre no mesmo horário para tentar estabelecer um ritmo.
Evitar comidas picantes, muito salgadas, com excesso de condimentos ou conservantes, doces concentrados e alimentos que provocam flatulência (feijão, grão de bico, repolho etc.). É preciso cuidado com o leite: 60% a 70% daqueles com mais de 60 anos apresentam algum nível de intolerância à lactose.
O consumo de fibras deve ser estimulado em caso de obstipação, mas evitado se houver diarréia. As fibras solúveis, como as encontradas em polpas de frutas e alguns cereais, ajudam a formar e compactar o bolo fecal. As insolúveis, presentes na casca das frutas, em alguns cereais e em todas as verduras, não têm capacidade de compactá-lo e funcionam como laxantes.
Embora sempre úteis, essas medidas podem ser insuficientes para controlar os sintomas: boa parte dos pacientes necessita de tratamento medicamentoso.
Não vai longe o tempo em que a síndrome do intestino irritável era interpretada como simples distúrbio alimentar provocado pelo estresse, em pessoas neurastênicas. Hoje, sabemos que se trata de uma doença crônica resultante de alterações neuroquímicas que interferem no ritmo dos movimentos peristálticos. O tratamento exige cuidados dietéticos, orientação médica e até medicamentos de uso prolongado.
Folha de S. PAulo, 24/11/2007

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Por um Fio

Você leu? Drauzio relata histórias de pacientes à beira da morte e nos mostra quão difícil e complicado é encararmos o fim da vida, em determinado momento do livro ele reencontra com seu ex-professor da faculdade, enfermo, terminal com câncer. Ele reproduz o diálogo, quando o próprio doente reconhecia a inevitabilidade da morte próxima, e a desejava, perguntou-lhe Drauzio:

- O que você espera que eu faça?

E ouviu a seguinte resposta:

- O que existe de mais difícil em nossa profissão: reconhecer o momento em que a morte é iminente e ajudar o paciente a atravessá-lo sem sofrer, conduzi-lo com sabedoria e arte, para permitir que a vida se apague em silêncio, como uma vela. Pena que não aconteça sempre assim.

Álbum da Lilica - Fotos publicadas aqui

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