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domingo, 20 de abril de 2008

Quantas mentiras nos contaram

Quantas mentiras nos contaram; foram tantas, que a gente bem cedo começa acreditar, ainda por cima, se achar culpada por ser burra, incompetente e sem condições de fazer da vida uma sucessão de vitórias e felicidades.

Uma das mentiras: que nós, mulheres, podemos conciliar perfeitamente as funções de mãe, esposa, companheira e amante, e ainda por cima ter uma carreira profissional brilhante.

É muito simples: não podemos.

Não podemos; quando você se dedica de corpo e alma a seu filho recém-nascido, que na hora certa de mamar dorme e que à noite, quando devia estar dormindo, chora com fome, não consegue estar bem sexy quando o marido chega, para cumprir um dos papéis considerados obrigatórios na trajetória de uma mulher moderna: a de amante.

Aliás, nem a de companheira; quem vai conseguir trocar uma idéia sobre a poluição da Baía de Guanabara se saiu do trabalho e passou no supermercado rapidinho para comprar uma massa e um molho já pronto para resolver o jantar, e ainda por cima está deprimida porque não teve tempo de fazer uma escova?

Mas as revistas femininas estão aí, querendo convencer as mulheres – e os maridos - de que um peixinho com ervas no forno com uma batatinha cozida al dente, acompanhado por uma salada e um vinhozinho branco é facílimo de fazer - sem esquecer as flores e as velas acesas, claro, e com isso o casamento continuar tendo aquele toque de glamour fun-da-men-tal para que dure por muitos e muitos anos.

Ah, quanta mentira!

Outra grande, diz respeito à mulher que trabalha; não à que faz de conta que trabalha, mas à que trabalha mesmo. No começo, ela até tenta se vestir no capricho, usar sapato de salto e estar sempre maquiada; mas cedo se vão às ilusões. Entre em qualquer local de trabalho pelas 4 da tarde e vai ver um bando de mulheres maltratadas, com o cabelo horrendo, a cara lavada, e sem um pingo do glamour - aquele - das executivas da Madison.

Dizem que o trabalho enobrece, o que pode até ser verdade. Mas ele também envelhece, destrói e enruga a pele, e quando se percebe a guerra já está perdida.

Não adianta: uma mulher glamourosa e pronta a fazer todos os charmes - aqueles que enlouquecem os homens - precisa, fundamentalmente, de duas coisas: tempo e dinheiro.

Tempo para hidratar os cabelos, lembrar de tomar seus 37 radicais livres, tempo para ir à hidroginástica, para ter uma massagista tailandesa e um acupunturista que a relaxe; tempo para fazer musculação, alongamento, comprar uma sandália nova para o verão, fazer as unhas, depilação; e dinheiro para tudo isso e ainda para pagar uma excelente empregada - o que também custa dinheiro.

É muito interessante a imagem da mulher que depois do expediente vai ao toalete - um toalete cuja luz é insuportavelmente branca e fria, retoca a maquiagem, coloca os brincos, põe a meia preta que está na bolsa desde de manhã e vai, alegremente, para uma happy hour.

Aliás, se as empresas trocassem a iluminação de seus elevadores e de seus banheiros por lâmpadas âmbar, os índices de produtividade iriam ao infinito; não há auto-estima feminina que resista quando elas se olham nos espelhos desses recintos.

Felizes são as mulheres que têm cinco minutos - só cinco – para decidir a roupa que vão usar no trabalho; na luta contra o relógio o uniforme termina sendo preto ou bege, para que tudo combine sem que um só minuto seja perdido.

Mas tem as outras, com filhos já crescidos: essas, quando chegam em casa, têm que conversar com as crianças, perguntar como foi o dia na escola, procurar entender por que elas estão agressivas, por que o rendimento escolar está baixo.

E ainda tem as outras que, com ou sem filhos, ainda têm um namorado que apronta, e sem o qual elas acham que não conseguem viver. Segundo um conhecedor da alma humana, só existem três coisas sem as quais não se pode viver: ar, água e pão.

Convenhamos que é difícil ser uma mulher de verdade; impossível, eu diria.

Parabéns para quem consegue fingir tudo isso...

Danuza Leão

domingo, 13 de janeiro de 2008

O Que Nós Queremos Deles? por Danuza Leão

Mas, afinal, o que querem as mulheres de um homem? O que nós queremos?!

Em primeiro lugar, que ele nos ame muito: muito mas não exageradamente. Que nos entenda, que nos ouça sempre com muita atenção, mesmo que não esteja muito interessado no que estamos falando (mas fingindo estar). Não, ele não precisa nos trazer flores: mas deve estar sempre nos procurando, fazendo um carinho no nosso ombro, pousando (apenas pousando) a mão na nossa coxa por debaixo da mesa ou quando estiver dirigindo o carro, coisa de quem se sabe dono absoluto do nosso coração (e do nosso corpo): só faz isso um homem seguro, que é o que todas queremos. Por outro lado, é preciso que ele nos solicite muito, pergunte que gravata deve usar; se gostamos da água-de-colônia nova, que carro deve comprar; mesmo que acabe fazendo o que quer; sem dar a mínima para a nossa opinião. Mas também é preciso que às vezes fique quieto, calado, para nos deixar bem inquietas, imaginando no que será que ele esta pensando. Mulher não pode nunca se sentir nem muito segura nem muito insegura: tem que ser no ponto certo. O ponto certo, essa é a questão. Para isso é preciso sensibilidade, coisa fundamental no homem que se ama. Sensibilidade para sentir quando estamos precisando de um carinho, de um amasso ou de ficar em silencio. E ser capaz de , na hora da briga, dizer "vem cá, sua boba", e a gente se aninhar nos braços dele esquecendo de tudo que estava falando. E também, criatividade, para não deixar que a rotina acabe com o romance. E acima de tudo cumplicidade, em todas as horas difíceis que possamos passar: saber que podemos contar com o apoio dele, mesmo que na intimidade até discorde de alguma coisa, mas estar ali, ao nosso lado, como melhor amigo e confidente é a melhor coisa do mundo. Ah, como é bom um homem assim. Não é preciso que ajude a lavar os pratos nem a arrumar a cozinha, essas bobagens a gente faz com o maior prazer quando ama. Mas a cada cinco minutos pode perguntar: enquanto assiste o futebol (sem tirar os olhos da TV), se ainda vai demorar muito essa arrumação, pedir pra você levar uma cerveja e dizer "vem sentar do meu lado para ver o jogo". Esse jogo não nos interessa nem um pouco mas saber que ele precisa de nós num momento tão crucial é tudo de que precisamos para ser felizes. E quando o time dele fizer um gol ele comemorar te abraçando e beijando muito, seja solidária e mostre-se tão feliz como se tivesse acabado de ganhar o mais lindo vestido da última coleção de Valentino. Não basta ser mulher, tem que participar. A hora de ir pra cama é muito importante: mesmo que ele esteja estudando um processo ou lendo uma revista em quadrinhos, é fundamental que ponha a perna em cima da sua, para que você sinta que, aconteça o que acontecer, ele estará sempre ligado em você. E um homem que quer ser amado sobre todas as coisas não pode jamais, mas jamais, depois de apagar a luz do abajur, se virar de costas para dormir, isso é crime que nenhuma mulher perdoa. E quando, já no escuro, ele faz um carinho na sua cabeça e se encaixa - não há mulher que resista a um homem que sabe se encaixar bem -, ai é que você sente a felicidade total e pensa que é aquele homem, aquele e nenhum outro, que pode fazê-la feliz. É só isso que queremos dos homens. Não é querer muito, é?"

domingo, 24 de junho de 2007

ANIVERSÁRIO: sempre o mesmo problema.

Quando você é criança, é ótimo. Em primeiro lugar não se vai à escola, e em segundo tem os presentes. Pai, mãe, tios, avós, padrinhos, todos perguntam o que você gostaria de ganhar, e no dia da festa a cama ficava cheia de embrulhos -ô coisa boa. Depois, tinha a festa, com direito a convidar todos os amigos, sem limite. O bolo era normal -nada de campo de futebol com os jogadores-, e como decoração, no máximo, umas bolas de soprar; e precisava mais? Com o tempo passando, as coisas foram se complicando: quem tem mais de dez anos acha uma babaquice bolo com velas e quer que a festa seja numa discoteca, com som techno e tudo. E as meninas vão feito umas anãzinhas, de botinha de salto alto, unhas pintadas e maquiagem feita por um profissional do ramo -o efeito Xuxa. Depois dos 11, 12, existe a azaração e a ficação, para desespero das mães e dos pais, que, aliás, são proibidos de pisar no recinto da festa. Como deve ser difícil ser mãe e pai a essa altura do campeonato, cruzes.

Aí se chega aos 30, 35, e a opção costuma ser jantar com casais num restaurante da moda, ou uma amiga oferece um jantar. Não chega a ser muito divertido; afinal, festa só existe com um objetivo: arranjar namorado. Como isso é difícil de acontecer, a noite só serve para lembrar que o tempo está passando, e rápido. Mas um dia você se vê às vésperas do tal aniversário sem ter a mais vaga idéia do que vai fazer e sem nenhuma vontade especial de nada.

Quer estar com seus maiores amigos? Mas você já vê sempre esses amigos, qual a graça especial desse dia? Quer ganhar presentes? Mas já tem tudo que precisa, e se quando entra numa loja para comprar uma simples bolsa já leva tanto tempo na dúvida, é o caso de pensar: se não consegue escolher o que quer, imagina outra pessoa. Que tal ficar sozinha em casa como se fosse um dia qualquer?

Difícil: e se cair numa deprê? Se pudesse combinar de jantar com um amigo sem que ele soubesse que é seu aniversário, talvez fosse uma solução, mas não vai escapar dos telefonemas de parabéns, e sobretudo da pergunta repetida 30 vezes "E vai fazer o quê?" Muito difícil a vida. Ninguém se conforma com a resposta "Não sei, não combinei nada". Como, não sabe? Fica difícil explicar que tanto faz, que vai passar um dia como todos os outros e que, se for para casa sozinha, pode também não cair em depressão alguma, e pensar com um certo orgulho que superou certas convenções, certas datas.

Mas já que ficou convencionado que no dia do aniversário se tem certos direitos, comece pelo mais elementar: tire o telefone do gancho. Peça uma comida bem boa por telefone, faça um uísque e ponha um belo de um CD -um Chet Baker, por exemplo- e comece a se preparar para ser feliz; pense em como é bom não ter que brindar com ninguém, não ter que agradecer as felicidades e os felizes aniversários que te desejam. Ficar quietinha com você mesma -nem eufórica, nem deprimida. Apenas tomando um uísque sozinha, que é uma das coisas mais agradáveis que existem.

Vá para a cama cedo, lá pelas 11h, tendo a felicidade de se achar uma pessoa sensata, equilibrada e em paz com a vida. E se for preciso, tome um tranqüilizante: geralmente é. No dia seguinte se prepare, pois a galera do trabalho não esquece nunca; mas proíba que cantem o "Parabéns pra Você", pois existem limites para tudo.

E lembre de que, agora, só daqui a um ano -que felicidade.

Danuza Leão. As datas. Folha de S. Paulo, 24/06/2007. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2406200709.htm

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