Conte-me tudo...

Escreva para mim Lilica

Translate This Blog

"Não tive filhos não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria. Machado de Assis"
"Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito." Clarice Lispector.
"Sonhar é o melhor de tudo e muito melhor do que nada!" Luiz Fernando Veríssimo .
Mostrando postagens com marcador Língua Portuguesa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Língua Portuguesa. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Ortografia



O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa propõe uma ortografia única a ser usada por todos os países de língua portuguesa. Foi assinado em 1991, mas apenas este ano foi ratificado por todos os governos. O Acordo possibilita a criação de normas ortográficas comuns para as variantes da língua portuguesa, facilita a difusão bibliográfica e de novas tecnologias, reduz o custo econômico e financeiro da produção de livros e documentos. Será?

Leia a íntegra do acordo. Clique aqui


domingo, 16 de novembro de 2008

Minha pátria é minha língua

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Sobre a Vírgula

Muito legal a campanha dos 100 anos da ABI (Associação Brasileira de Imprensa).

Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

Uma vírgula muda tudo.

ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

Detalhes Adicionais
SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.

Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER.
Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

30 Dicas para escrever bem

1. Deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. É desnecessário fazer-se empregar de um estilo de escrita demasiadamente rebuscado. Tal prática advém de esmero excessivo que raia o exibicionismo narcisístico.

3. Anule aliterações altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no inicio das frases.

5. Evite lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parêntesis (mesmo quando for relevante) é desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou??...então valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é um erro em todas as situações.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai ficar uma palavra repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde a palavra se encontra repetida.

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: "Quem cita os outros não tem ideias próprias".

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez, ou por outras palavras, não repita a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P, nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que a moderação.

22. Evite mesóclises. Repita comigo: "mesóclises: evitá-las-ei!"

23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

24. Não abuse das exclamações! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!!!!

25. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia nelas contida e, por conterem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçam, desta forma, o pobre leitor a separá-la nos seus diversos componentes de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língúa portuguêza.

27. Seja incisivo e coerente, ou não.

28. Não fique escrevendo (nem falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e estar causando ambigüidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda estão acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em não estar falando desta maneira irritante.

29. Outra barbaridade que tu deves evitar chê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região onde tu moras, carajo! ..nada de mandar esse trem...vixi..entendeu bichinho?

30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém irá aguentar já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.


quinta-feira, 5 de junho de 2008

tu surtes, ele surte, nós surtimos...

"Passageiro "surta" e obriga avião a pousar..."

Estava na Folha de terça-feira: "Passageiro "surta" e obriga avião a pousar em Cumbica". Por que as aspas em "surta"?

Quem lê só o título pode imaginar que elas tenham sido empregadas só porque "surtar" não freqüenta as variedades formais da língua, isto é, porque é termo giriesco. De fato é (o "Aurélio" e o "Houaiss" dizem que seu uso constitui "brasileirismo", ou seja, é típico do português brasileiro -o "Aurélio" diz ainda que o termo é típico da linguagem familiar).
Mas de onde teria vindo então o largo emprego familiar ou giriesco do verbo "surtar" com o sentido de "apresentar, mais ou menos repentinamente, sintomas associados às psicoses; ter um surto psicótico" ("Aurélio")? Do substantivo "surto", que, diferentemente de "surtar", ocorre na linguagem específica (da psicanálise, de acordo com o "Houaiss", que define o termo como "crise psicótica caracterizada por maior ou menor grau de desintegração da personalidade e incapacidade de avaliar a realidade externa").
Mais do que comum, o processo (acréscimo do sufixo "-ar" a um substantivo) verificado com "surtar" nesse caso evidencia uma "cizânia" lingüística: um termo ("surtar", no caso) que freqüenta as variedades não-formais da língua cognato de outro ("surto", no caso) que encontra abrigo no padrão formal. Acabamos de ver uma das possíveis razões para o emprego das aspas em "surta" no título jornalístico citado no começo da coluna. Para que fique claro: termos da gíria costumam ser postos entre aspas.
A outra razão (na verdade, uma "co-razão") é o fato de que o caso "morreu" ali, ou seja, não foi expedido nenhum laudo médico que atestasse que o passageiro em questão de fato teve um surto. Moral da história: cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém... Entre afirmar categoricamente que o passageiro teve um surto (ou "surtou") e apenas dizer que seu comportamento a bordo lembrou um surto, optou-se pela redação mais "prudente" (e daí o emprego das aspas). Cabe aproveitar o fato para lembrar um verbo que pode gerar dúvida em relação à sua flexão. Refiro-me a "sortir", que significa "abastecer", "prover", "variar", "combinar", "misturar". A primeira pessoa do singular do presente do indicativo de "sortir" é "surto" ("Sempre surto a loja com os produtos mais baratos"). E a de "surtar"? Também é "surto" ("Surto com essas coisas").
Da segunda do singular em diante, as flexões seguem caminhos distintos ("tu surtes, ele surte, nós surtimos...", de "sortir"; "tu surtas, ele surta, nós surtamos...", de "surtar"). E o presente do subjuntivo? Bem, aí basta lembrar que esse tempo se forma a partir da primeira pessoa do singular do presente do indicativo, que, como já vimos, é "surto" para os dois verbos. O "detalhe" é que "surtar" termina em "-ar", portanto seu presente do subjuntivo é "que eu surte, que tu surtes, que ele surte, que nós surtemos..." ("Espero que tu não surtes quando ele chegar aqui com a tua ex-namorada"), enquanto "sortir" termina em "-ir", portanto seu presente do subjuntivo é "que eu surta, que tu surtas, que ele surta..."
("Você quer eu que eu surta a loja com produtos mais baratos?").
Por fim, não se pode esquecer que também existe o verbo "surtir", que significa "ter como conseqüência", "produzir ou alcançar efeito". É isso.


PASQUALE CIPRO NETO
Folha de São Paulo, 05/06/2008



quarta-feira, 7 de maio de 2008

Preste atenção seu moço



Lugar-comum
Sérgio Rodrigues

É bom lembrar que:
Nem todo calculista é frio.
Nem todo frio é calculista.
Nem toda mentira é deslavada.
Nem todo apoio é irrestrito.
Nem todo silêncio é sepulcral.
Nem todo calor é senegalesco.
Nem todo suor cai em bicas.
Nem toda chuva é torrencial.
Nem todo sucesso é retumbante.
Nem toda vitória é esmagadora.
Nem toda vaia é estrepitosa.
Nem todo caso de amor é tórrido.
Nem toda realidade é dura.
Nem toda desculpa é esfarrapada.
Nem toda dor é lancinante.
Nem toda dúvida é atroz.
Nem todo barulho é ensurdecedor.
Nem toda ascensão é meteórica.
Nem toda carreira é desabalada.
Nem todo drible é desconcertante.
Nem todo toque é sutil.
Nem toda vontade é férrea.
Nem todo erro é crasso.

"Não é só na linguagem informal. O fascínio que o clichê exerce é igualmente forte, se não for mais, no discurso dito sério. De que outra forma explicar que expressões que viraram modismos, verdadeiros fetiches como “inclusão social”, “vontade política”, “agregar valor”, “política consensuada”, “agenda positiva”, “herança maldita” etc. – como explicar que essas coisas continuem freqüentando com a cara mais lavada do mundo tantos discursos em plenário, tantos pronunciamentos na TV, tantos artigos de jornal, como se fossem motivos de orgulho e não de embaraço para quem as usa? "


sábado, 12 de abril de 2008

Campanha contra "ilizar"



Recebi por e-mail.

VERBOS NOVOS E HORRÍVEIS
Ricardo Freire

Não, por favor, nem tente me disponibilizar alguma coisa, que eu não quero.
Não aceito nada que pessoas, empresas ou organizações me disponibilizem. É uma questão de princípios. Se você me oferecer, me der, me vender, me emprestar, talvez eu venha a topar. Até mesmo se você tornar disponível, quem sabe, eu aceite. Mas, se você insistir em disponibilizar, nada feito.

Caso você esteja contando comigo para operacionalizar algo, vou dizendo desde de já: pode ir tirando seu cavalinho da chuva. Eu não operacionalizo nada para ninguém e nem compactuo com quem operacionalize. Se você quiser, eu monto, eu realizo, eu aplico, eu ponho em operação. Se você pedir com jeitinho, eu até implemento, mas operacionalizar, jamais.
O quê? Você quer que eu agilize isso para você? Lamento, mas eu não sei agilizar nada. Nunca agilizei. Está lá no meu currículo: faço tudo, menos agilizar. Precisando, eu apresso, eu priorizo, eu ponho na frente, eu dou um gás. Mas agilizar, desculpe, não posso, acho que matei essa aula.

Outro dia mesmo queriam reinicializar meu computador. Só por cima do meu cadáver virtual. Prefiro comprar um computador novo a reinicializar o antigo. Até porque eu desconfio que o problema não seja assim tão grave. Em vez de reinicializar, talvez seja o caso de simplesmente reiniciar, e pronto.

Por falar nisso, é bom que você saiba que eu parei de utilizar. Assim, sem mais nem menos. Eu sei, é uma atitude um tanto radical da minha parte, mas eu não utilizo mais nada. Tenho consciência de que a cada dia que passa mais e mais pessoas estão utilizando, mas eu parei. Não utilizo mais. Agora só uso. E recomendo. Se você soubesse como é mais elegante, também deixaria de utilizar e passaria a usar.

Sim, estou me associando à campanha nacional contra os verbos que acabam em "ilizar".

Se nada for feito, daqui a pouco eles serão mais numerosos do que os terminados simplesmente em "ar".

Todos os dias, os maus tradutores de livros de marketing e administração disponibilizam mais e mais termos infelizes, que imediatamente são operacionalizados pela mídia, reinicializando palavras que já existiam e eram perfeitamente claras e eufônicas.

A doença está tão disseminada que muitos verbos honestos, com currículo de ótimos serviços prestados, estão a ponto de cair em desgraça entre pessoas de ouvidos sensíveis.

Depois que você fica alérgico a disponibilizar, como vai admitir, digamos, "viabilizar"?

É triste demorar tanto tempo para a gente se dar conta de que "desincompatibilizar" sempre foi um palavrão.

Precisamos reparabilizar nessas palavras que o pessoal inventabiliza só para complicabilizar.

Caso contrário, daqui a pouco nossos filhos vão pensabilizar que o certo é ficar se expressabilizando dessa maneira. Já posso até ouvir as reclamações: "Você não vai me impedibilizar de falabilizar do jeito que eu bem quilibiliser".

Problema seu. Me inclua fora dessa.


quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Gerúndio segundo Professor Pasquale

PASQUALE CIPRO NETO
Demitindo a "demissão" do gerúndio

"ALÔ, É DO GOVERNO do Distrito Federal?
-É.
-O governador está?
- Não; ele está a viajar.
-Está "a viajar'? Mas não é de Brasília? Ou será que me enganei e telefonei para Lisboa?"


Pois é, caro leitor. Se os servidores do governo do Distrito Federal levarem a ferro e fogo a "ordem" do governador José Roberto Arruda (DEM), esse diálogo talvez se torne real. Explico: segunda-feira, o governador do DF "demitiu" o gerúndio. Lá vai a íntegra do texto oficial:

"Decreto nº 28.314, de 28 de setembro de 2007. Demite o gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providências. O governador do Distrito Federal, no uso das atribuições que lhe confere o artigo 100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:
Art. 1º - Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.
Art. 2º - Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA.
Art. 3º - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário.
Brasília, 28 de setembro de 2007.
119º da República e 48º de Brasília
JOSÉ ROBERTO ARRUDA"


Fora eu o "Gerúndio" (o caro leitor notou que, no decreto, o dito-cujo virou substantivo próprio?), entraria com uma ação na Justiça do Trabalho. "Que história é essa de me demitir?", perguntaria o Gerúndio aos advogados do governo do DF.


A assessoria do governador explica que, quando ele cobrava a conclusão de projetos, recebia respostas como "Vou estar terminando", "Vou estar lhe informando", "Vou estar concluindo". De fato, frases como essas transmitem a sensação de que nada acontecerá. Isso é herança maldita do ultramegachato uso de bobagens como "Ele tem que estar enviando um fax", "Vou estar transferindo a ligação", "Você tem que estar pegando uma senha", "Não pude estar comparecendo" etc.


Nessas insuportabilíssimas frases, emprega-se a estrutura "estar + gerúndio" para indicar processos que não são durativos ("Estava tomando banho"; "Nessa hora vou estar almoçando com ela") nem simultâneos ("Quando você estiver falando com ele, estarei terminando o relatório").


Pois o nó da questão é justamente o mau uso do gerúndio, ou melhor, da estrutura "estar + gerúndio" (que recebeu o nome de "gerundismo").


O governador tem pleno direito de enfurecer-se com seus assessores enrolões, mas nenhum direito de tentar legislar sobre o uso da língua, sobretudo quando essa tentativa esbarra em impropriedades técnicas.

Viva o gerúndio! Abaixo o decreto do governador do DF! Abaixo o mau uso de "estar + gerúndio"! E, sobretudo, abaixo todos os enrolões (da administração pública, do Senado, da Câmara Federal, das empresas de telefonia fixa, móvel etc., etc., etc.)!


Em tempo: um funcionário do Congreço, digo, Congresso Nacional encomendou por conta própria um carimbo com os dizeres "Congreço Nacional". Milhares de documentos receberam o tal carimbo. Pensando bem, não terá sido um ato falho? Com o Congresso exibindo níveis indigentes de comportamento, nada de "ss". Seu Creysson neles! É isso.


quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Carimbo.

Buemba! Estão assaltando até a gramática em Brasília! O "Congreço" é um "suceço"!
José Simão

Buemba! Buemba! Monkey News de quarta-feira começa com piada pronta de primeiríssimo nível. E essa é a piada pronta que você prova com a foto! É o carimbo do "Congreço"!



Lá em Brasília estão assaltando até os dois esses! Assaltaram a gramática! Foi o seu Creysson que fez o carimbo! Rarará! E o Simão teve várias idéias para carimbo: "O Congreço é um suceço!; "Çó suceço"! Tão usando o Lulês no "Congreço"!

E demoraram semanas para perceber o erro! Não é só o carimbador que é analfabeto. Todo mundo é analfabeto.

Continuando na gramática, o governador do Distrito Federal, o José Roberto Arruda, demitiu o gerúndio! Foi um choque de gestão! O gerúndio era mal empregado! Mais um desempregado! Pelo menos tem um lado positivo. Não vão mais falar: "Vamos estar roubando" em Brasília.

E sabe o que o gerúndio respondeu quando soube da decisão? "Vou estar mandando um advogado." Agora ele "vai estar procurando" um novo emprego! Mas o problema em Brasília não é de gerúndio. É de passado e de presente! E de quem recebe o presente. O problema não é verbo, é verba! Rarará!



domingo, 5 de agosto de 2007

Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim

"Comigo me dasavim" - Pasquale Cipro Neto

EM SEU VESTIBULAR do meio do ano, a Universidade Mackenzie elaborou duas questões sobre estes versos do poeta português Francisco de Sá de Miranda: "Comigo me desavim / Sou posto todo em perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim". Em tempos tão sórdidos como os que vivemos neste nefando país (sou brasileeeeeiro, com muuuuuita vergooooonha -que tal o comportamento do público e de certas "glórias" do nosso esporte durante o Pan?) -tempos em que se têm ou só se podem ter certezas ("O homem deve amar a verdade, e não a certeza", dizia meu caro e inesquecível professor João Paixão Netto)-, morro de vontade de falar desses e de outros versos dessa trova do genial Sá de Miranda, cuja segunda estrofe (que a banca não incluiu na prova) assim termina: "Que meio espero ou que fim / Do vão trabalho que sigo, / Pois que trago a mim comigo / Tamanho imigo de mim?".

Sá de Miranda não é vivo, não, nem morreu há pouco tempo. Miranda é contemporâneo de Camões e, como se vê, falava das inquietações e antagonismos que habitam o interior dos indivíduos pensantes. Pois bem. Eu disse que morro de vontade de falar dos mais que atuais e pertinentes versos de Sá de Miranda, mas vou ater-me a dois dos fatos lingüísticos presentes na trova destacada. Um deles é o da palavra "imigo". Sim, "imigo" ("tamanho imigo de mim", lembra?). Trata-se da forma sincopada de "inimigo", que não se usa mais hoje em dia, mas ocorre em autores brasileiros como Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias. (A síncope é o desaparecimento de fonemas do interior de uma palavra.) No texto de Sá de Miranda, a forma "imigo" parece ressaltar o antagonismo dos dois "seres" que habitam o interior do poeta, ou seja, parece realçar a idéia de que o inimigo está in/migo, isto é, dentro de cada um de nós. Como se diz na velha Itália, "se non è vero, è ben trovato".

O leitor certamente percebeu que acabei de perpetrar a velha figura da preterição, que consiste em fingir ou afirmar que não se falará de algo de que na verdade já se fala ou falou. Quer outro exemplo? Lá vai: "Não quero me meter na sua vida, mas...".

O segundo fato lingüístico que merece comentário é a forma verbal "desavim" ("Comigo me desavim"). O leitor é capaz de dizer, de bate-pronto, a que verbo pertence a flexão "desavim"? Lá vai uma dica: "vim" é do verbo "vir", "intervim" é de "intervir", "provim" é de "provir", portanto "desavim" é de... É de "desavir", cujo "ato de" é traduzido pelo substantivo "desavença", que nada mais é do que uma discórdia, querela ou dissensão, isto é, um conflito.

O leitor pode ter estranhado a forma "desavim" e suas "primas" (como "provim"). Esse estranhamento talvez se explique pelo uso pouco freqüente dessas flexões e pela não-associação imediata com a matriz da família (o verbo "vir"). Na língua culta, "vir" é a base da flexão de "intervir", "provir" ou "desavir" (venho/ intervenho/provenho/desavenho; vim/intervim/provim/desavim). Há algum tempo, a Fuvest pediu aos candidatos que substituíssem "nascer" por "provir" no verso "Eu nasci com o samba", da antológica canção "O Samba da Minha Terra", de Dorival Caymmi. A resposta? Lá vai: "Eu provim do samba". É isso.



Álbum da Lilica - Fotos publicadas aqui

Arquivo do blog

Seguidores

Minhas visitas e meus contatos